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Tudo pode acontecer


Era um suor frio. Sinapses descontroladas - serotonina -, resultavam-lhe em tremedeiras convulsivas; quase parecido a um ataque epilético. A febre o convulsionava e ele delirava em martírios mentais que o levavam a mundos estranhos.

Algo bizarro acontecia naquele celular. Muitas mensagens foram mandadas e recebidas. Algumas fotos, apenas de rosto, tinham sido enviadas. Doutro lado havia o outro, havia o ser a quem o estimulava e o detinha preso à pequena tela de quatro polegadas e meia - uma resolução suficiente para sentir cada uma das palavras que recebia. 

Desejava apenas um beijo daquele ser, um sorriso presente, um aperto de mão sensato, um abraço - talvez - apertado e suficiente para sentir toda a tortura que seu coração contorcionava, já que não tinha como se aproximar. Não tinha como estar lá na hora que desejava e queria estar. Mas tinha a ousadia...

Ousar sempre foi seu ponto forte. Talvez fosse isso que o tornara tão atraente e fascinante aos olhos daquele que o detinha à pequena tela. Surpreendente era rever as fotos, o sorriso, a delicadeza do olhar e sua profundidade; era tão gostoso tê-lo presente em si, mesmo que dentro daquele aparelho. Era magnífico sentir, era esplendoroso e totalmente benevolente olhar suas mãos tocando o rosto pálido e barbudo que tinha ali diante do seu cenho choroso e agonizado - porque ele queria-o e querer não é poder; não é poder ter.

Uma música de fundo vinha-o à mente, aquela que ele ouvira quando se aproximara pela primeira vez dos olhos robustos e da boca carnosa e totalmente perspicaz, quiçá, sagaz. Era uma melodia leve e auspiciosa, tendenciosa ao delírio, aos fascínios; um lá e um sol (notas) que deitavam sua alma em uma rede de pluma e o faziam devanear...

À beira da morte, lá estava ele e seu celular preso aos finos dedos, débeis, gastos pela doença que o levava. Seu olhar muito ofuscado não conseguia ver as pessoas que o cercava; via-se vultos e ouvia-se muito pouco. Quase nada, para se dizer a verdade. Ele delirava e balbuciava fracamente o nome daquele que o detinha à pequena tela do celular. Quem estava por perto não entendia e nem via sentido; nunca tinham ouvido o tal nome; ninguém da família o possuía.

À beira da morte, ele sentiu o celular vibrar pela última vez, era aquele, era o cenho mais lindo do mundo. Sua mãe leu a mensagem na pequena tela e tudo o que ele pode entender foi: "eu o visitarei".
Uma lágrima saltou-lhe o olhar trêmulo e quase inconsciente, contornou sua face magra e pálida. Todos o olharam, e pouco entenderam o ato de emoção. A mãe se arrepiou e segurou firme às mãos do filho, que em seu leito, deixava todos naquela hora.



Você já se apaixonou por alguém sem ao menos tê-lo visto? Conte-me como foi aqui nos comentários! 


Obrigado por ler até aqui!! 


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