quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ao sol do meio-dia

Descalços, andavam por aquela merda de lugar. Era um sol que não mais estalava o coco da Bahia; era mendigo a queimar seco ao ardor dos ventos. Três pessoas indefinidas, derrubadas e cansadas da vida do sertão nordestino. Uma delas disse:
- Caralho, Ruivaldo! Para de tacar pedra de barro seco na cabeça da tua tia! - era uma tom austero.
O menino de vinte e poucos anos, sentado numa cadeira de rodas, gemeu:
- Hum, hã... bá... - balançava a cabeça de um lado pro outro sem parar.
- Fagundes, o menino está convulsionando, acho que vai morrer neste sol! - expressou Marieta, uma magrela que as costelas se juntavam às tripas.
- O que eu fiz pra merecer isto, senhor meu Deus?!
- Para, Fagundes! Ele está morrendo, está sufocando! - desesperava Marieta, enquanto jogava gotas d'água da moringa que tinha em mãos no rosto do rapaz inválido.
- Marieta, deixe-o aí! Vamos embora, será um a menos pra sustentar! - olhava o sol a pino.
Ela debruçou-lhe o olhar de ódio e se desfez em prantos exaustivos.
- Você não tem coração, Fagundes! O pobre do rapaz está a morrer e você o quer abandonar?! Onde está sua piedade?
Por mais incrédulo que fosse, aquela não era a vontade expressa de Fagundes. No fundo ele queria sustentar e cuidar do sobrinho, Ruivaldo, mas as circunstâncias não o deixavam concretizar tal esperança.
- O que posso fazer, Marieta? A água nos falta, as bolachas de barro já viraram adubo desta terra e meus sonhos já não existem mais.
Por um momento, enquanto o rapaz ainda passava mal, Marieta pode entender a austeridade do seu marido; tudo por conta da perda das esperanças e da falta de entusiasmo à vida.
Num rompante, sem dizer mais nada ao marido, que segurava um saco de bugigangas ao sol, tentou acalmar o pobre Ruivaldo que já não tinha esperança de vida. Assim como o tio, ele já tinha se perdido e dado a alma à morte. Morreu.
Duas lágrimas marejaram a face enrugada e combalida de Fagundes, e seguiram o caminho, deixando a carne apodrecer ao sol do meio-dia.


Um trecho do meu conto: Ao sol do meio-dia, que conta a história da desesperança. De que perdemos os nossos sonhos no caminhar da vida, e cada pessoa deste conto deixa suas dificuldades te derrubarem a ponto de uma morte coletiva acontecer. Logo será disponibilizado na íntegra. Aguarde!


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