sexta-feira, 20 de março de 2015

Por um instante

Na verdade eu sei o que afligia aquele ser. Era algo comum. Ele batia as asas, ele rodopiava, ele caía. Ele atentava-se ao mais profundo horizonte, donde uma pétala flutuava, e ele ainda permanecia atento, sem nenhum descuido; não perdia de vista aquela pétala caindo. Suas antenas enchiam-se de gostas d'água e o cheiro mudava de aroma. Parecia mais Rosácea, mas na verdade era Laureácea, uma linda flor de Persea americana. Uma noite de cheiros de abacateiro e uma pétala saída daquela corola intermitente, que instigava a mente e que deixava àquele de coração no soalho de tua casa.

Dependurado à alvissareira, num mastro cheio de pássaros ousados delirantes e cheios de cantoria, era ele mesmo, próprio, quem derramava as gotas de água, de lágrimas, de choro, de sentimentos; de, talvez, angústias. Uma pata mexia as barbatanas - antenas -, a outra sacudia seus ocelos ainda descoloridos. Eu o via e sentia que aquela pobre criaturinha, cheia de santidade, olhava-me de soslaio ainda que impertinente, ainda com receio, mas que, aos poucos, foi se doando a mim, foi se envolvendo e contornando seu medo ao conforto do meu colo. Eu já me rendia aos seus afagos deliberadamente leves e muito sutis, até que a palmeira onde estava perfurou-me a veia e uma gota de sangue cobriu-lhe a cabeça, e aí eu perdi aquele bichinho de vista; aquela pobre criaturinha que eu estava estimando mutuamente. Já fazia parte, até, do meu coração. 
Senti-lo foi o mais árduo dos meus sentimentos, compreendê-lo me trouxe a humanidade; poder partilhar de sua carência me fez ver o quanto de amor há num ser tão imperceptível. O pequeno era frágil e morreu. Mas eu soube que por um instante dei-lhe o conforto que ele tanto queria, enquanto olhava fixamente àquelas pétalas que caíam no horizonte.


Somos uma ampulheta viva em que o sangue escorre até onde o sentimento aguenta.




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