sábado, 17 de janeiro de 2015

O que os olhos veem (Último capítulo)

Se você ainda não leu o Capítulo 2 do folhetim "O que os olhos veem", por favor CLIQUE AQUI! antes de começar este.


- Eu sempre fui assim, Júlia - lamentou César, abaixando a cabeça.
- Eu desconfiava, mas hesitei em te interrogar. Eu via a maneira como você me tratava às vezes, jeito rude, pensava até que você não me amava - em tom baixo e sereno.
- Eu saía com ele quase todos os dias...
- Eu sei...
- E nunca me disse nada? 
- Sofri, sabe, César?! Mas, o que eu ia fazer? Eu aceitava, amava você. Fingia que tudo estava bem - uma lágrima saltou-lhe o olho esquerdo.
- Desculpa... - o outro sentia-se mais pesaroso ainda. - Sou um monstro!
- Não precisa se desculpar... Já passou... Meus olhos já viram o que tinha pra ser visto. E eu entendi. Você está feliz, agora?
- Você é uma pessoa muito boa, Júlia. Eu tinha que ter sido verdadeiro com você! Peço desculpas, sim... - chorava.
- Calma, César... 
O outro tentava conter as lágrimas com as mãos, enquanto os soluços lhe embargavam. Um hiato se deu.

- E você está bem, agora? - era Júlia de novo.



- Sinto-me livre - César respondeu depois de um último soluço.
- Que bom...
- Mas, culpado, é claro!
Alice levou suas mãos até o rosto pálido de César, ajudando-o a levantar a cabeça, e o olhou fundo nos olhos.
- Fique em paz... Eu quero apenas que você seja feliz... Mentir nunca leva a lugar algum... Não se sinta culpado por uma coisa que você não tem culpa!
Ele estranhou a última indagação.
- Não tenho culpa?! Mas...
- Pare! - ela o interrompeu. - Você não tem culpa, porque se a sociedade não fosse heteronormativa como é, você nunca teria mentido para si mesmo! Nunca teria mentido para mim, e nada disso havia acontecido!
Ele pensou...
- Você é mesmo um anjo, Júlia.
- Estou longe de ser, César... Na verdade só parei para entender os fatos. Olhei para você e imaginei o quanto você vem sofrendo por esconder isso, tornando-se vítima de algo que não era pra ser considerado um crime; muito pelo contrário, isto deveria ser tão normal quanto qualquer outra coisa; tão normal quanto a heterossexualidade. Eu penso assim...
- Você pensa maravilhosamente bem... Se todos pensassem como você...
- É... eu sei... O mundo seria muito melhor, e nada disso teria acontecido. - pausou. Depois de alguns segundos ela retornou: - Mas, agora sou eu que te peço desculpas!
Mais uma vez o cenho de César se fez em estranheza.
- Oras, mas por quê?
- Porque eu quis esconder isso da nossa filha! Porém, percebo que você tem que ser o mais verdadeiro possível com ela, porque ela não merece passar pelo o que nós dois passamos. E quero dá-la toda a liberdade de pensamento que quiser, que ela transcenda com relação às possibilidades de relacionamentos. E que até mesmo possa ter a oportunidade de verificar em seu íntimo o que mais lhe traz prazer.
Os olhos de César marejaram lágrimas enternecidas.
- Eu vou contá-la sim, mas peço que me dê um tempo pra pensar na melhor forma e ocasião para isso...
- Claro, tudo ao seu tempo, mas peço que não demore muito...
César levantou-se da cadeira onde estava sentado e abraçou Júlia com grande emoção. Estava comovido com a pessoa linda e compreensível que ela era, e, ao mesmo tempo, pesaroso, pois tinha magoado alguém que jamais teria merecido.
Uma, duas, três lágrimas saltaram-lhe, e ele pode notar que a verdade, por mais difícil que seja, ainda é a melhor maneira de lidar com a vida.




Viva a vida sem medo de ser quem você é; mesmo tarde, seja sempre verossímil. As pessoas que te amam de verdade te entenderão e permanecerão ao seu lado.



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