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Volúpia

Registro por Bruno Silva. Interior Paulista, município de Bastos, dia 06/01/2026. Raio de pôr-do-sol. 

Há volúpia aliciente... E, eu não sei bem como funciona a coisa do desejo, mas presto atenção aos detalhes, até porque eles são importantes; aliás, uma leve brisa bem fresca tange o meu úmero. Falando assim, parece que ando à carne viva, contudo, percebo que minha carne está viva, em um sangue quase que arterial. Não gostaria de dizer isso aqui, até porque minha senilidade e mística mentalidade já não me permitem mais serem assim, tão sensível. 

Acreditei que com o passar dos (d)anos, meu coração estaria mais ríspido e forte. Forte, talvez, mas acredito que ríspido eu nunca serei, porque a minha natureza é volúpia, é sanguinolento, é arterial, como se eu arrepiasse a cada instante vivido. Há quem me dissesse que isso era ser especial, mas para mim, é apenas um sofrimento eloquente da alma. Observando por outra ponta, meu corpo melhorou muito nesses últimos anos, tenho uma aparência respeitável e mais maduro do que antes, daqueles anos em que tudo que eu mais queria era um diploma e uma boa vida para viajar. Eu sempre sonhei... Demais. 

No momento, uma pitaya que a abocanho, sem nem pensar muito em sua doçura, tinge meus lábios de rosa ou um púrpura intenso, como se fosse a volúpia do coração que tantas vezes me foi ferido e que  ainda escolhe padrões que preferem se repetir, massivamente. Parece sarcasmo ou ironia, mas eu me apaixonei por alguém como antes me apaixonara, e isso não é nada auspicioso, é um grau de mal compreensão (de si) e de mal autoentendimento até mesmo da própria perenidade da vida. É infeliz demais. 

A dor, claro, é inevitável, porque amar padrões é pedir para se açoitar e se corroer sempre que tentar salvaguardar-se daquela angústia. No entanto, até neste presente momento nenhuma lágrima mais me caem às bochechas, e eu nem sei mais explicar o motivo dessa falta de gravidade. Elas simplesmente estão aqui, eu as sinto como ninguém... Ou, como eu mesmo deveria presenciá-las, eu sei, mas elas estão aqui, fogueando minha carne viva. 

A emoção bate no meu peito e eu entro em êxtase, de novo, aliás, ouvindo uma canção que me abrocha as pernas, desperta o tórax, e contraí a mandíbula n'um quase desamor... O que me parece ser parecido à pitaya que me desce o esôfago sem nem um gosto característico, mas cheia de cor. Espera, quero deixar claro que aqui ainda há cor, ou cores, se preferir, mas a minha escala de cinza anda pujante, maior que o meu arco-íris. Não porque tenho me feito fraco, mas porque tenho me feito forte para não me caracterizar um mimado adulto. 

Por fim, por onde passei, os amores que notei, os olhares que me disseram "eu te amo", trouxeram a certeza que mais dores deixaram, me fizeram (des)acreditar do que a vida é capaz e a vitalidade que me escorcharam. Sento-me, pitaya, teclado, celular, música, sentimentos, coração, volúpia... organizo-os  em cântaros ou cestos de palha, onde só o tempo os despedaçarão. 


Obrigado por ler até aqui! :) 

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