domingo, 18 de outubro de 2015

Precedentes da morte


As mãos dadas, olhava nos olhos dela. Era um olhar de pedido. Pedido de desculpas, talvez pela vida que dera a ela. Ela, por sua vez, não havia reclamado. Na verdade, nunca tinha se queixado dos momentos tristes vividos ao lado dele.
Por mais débil que estava seu toque naquele momento, ele tentava manter-se seguro às mãos de sua esposa. Uma enfermidade o atacara há dois anos e ele podia, hoje, sentir todo o desespero que era estar morrendo em frente sua amada. Olhava-na. Olhava como nunca havia a olhado. Sentia-se pesaroso. Sentia-se arrependido por todo o sofrimento que havia causado, por mais que ela o perdoasse, ele estava deveras magoado, e era mágoa consigo mesmo por ter percebido isso somente nos últimos minutos que precediam sua morte. Ele sentia. Ele morreria. Não haveria como escapar. Se escapasse, talvez, faria tudo de novo, magoaria tudo de novo, ousaria novamente; brincaria com o coração daquela que tanto o amava e, que por ele, fizera mais que qualquer outra pessoa o faria: o amaria sem precedentes, sem medos, sem paradigmas, sem ressalvas...
Os olhos marejavam, de ambos. Ela, rezava, pedia a qualquer que fosse o santo que o tirasse daquela situação, que por mais que ele a fizera sofrer não teria motivos de perdê-lo; não queria que se fosse para nunca mais voltar. Ela tentava mostrá-lo por meio de um sorriso singelo e quase invisível que ainda tinha esperanças da sua recuperação. Mesmo já enganado pelos médicos, ela tirava forças intrínsecas para dá-las ao seu grande amor. A pessoa por quem mais foi apaixonada, por quem faria tudo e tudo seria feito.
A pressão foi maior que qualquer coisa; explodiram lágrimas de seus olhos, que percorreram seu rosto já cansado de tanto padecer em dores que pareciam ser infinitas. Ele notou o desespero. Deslocou sua cabeça para o lado e tentou não vê-la naquele estado. Uma fisgada interna o fizera gemer. Ela se desesperou. Segurou mais forte suas mãos. Ele redarguiu num som quase inaudível, "Desculpa... Eu te amo...". 
Com a garganta fechada por conta da emoção que se circundava aquele momento, nenhuma palavra saia; ela se deitou no peito do seu amado. Num rompante, sentiu algo molhado que atingiu seu cabelo. Era um líquido viscoso que saia da boca daquele que se perdia naquele momento, que a deixava naquele estado, que não voltaria tão cedo ao seu encontro.
De repente uma onda de tosses repetidas parecidas à reação de um afogamento tomou conta do corpo dele. Ele tentava. Ela tentava. Mas não havia mais o que fazer. Pessoas de branco entraram, pediram a ela que saísse do quarto.
Em seguida, com seu coração extremamente acelerado e angustiado, teve a noticia que ele havia falecido. Um divisor de água tinha se estabelecido.

*Texto baseado em fatos reais*


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