sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O olhar da despedida

O dia amanheceu.
Parecia saber que algo de muito terrível lhe iria acontecer; só não sabia o quê.
Orelhas peludas, focinho alongado, patas magras, pelos curtos e pretos com manchas marrons. Um cãozinho de pequeno porte.
Era mais do que previsível que aquilo o aconteceria. O quê, nem mesmo ele sabia.
Nem mesmo o pobre cachorrinho.


Seus olhos estavam brancos, não dava para ver a pupila, tampouco, sabia se estava conseguindo ver algo; parecia cego.
A situação do pobre animal era dramática. Seu pelos contemplavam feridas que o deixavam extremamente debilitado, parecendo mais um morto vivo.
Como diziam, um cachorro zumbi.

Pobre cãozinho, estava muito, muito debilitado.
Suas unhas tão grandes que, quando ele tentava andar, titubeava de um lado para o outro, por conta da dificuldade imposta por elas. Terrível.
Estava muito mal.

Mas, mesmo as feridas lhe minando sangue e exalando um odor fétido, sua alma era límpida e sadia. O animal tinha uma beleza interior inigualável, era bondoso, amava seus donos; o seu olhar, mesmo ofuscado por aquela catarata, transmitia isso. 
O pobre cachorro era amável. Muito carinhoso.

Todos aqueles dias ele vinha lutando contra aquela doença que nem mesmo seus donos sabiam o que era.
Seu latido ainda era estridente; ainda tinha vida. Talvez uma hipótese de ainda estar bem; mas não estava.
Só vivia tristonho pelos cantos da casa, não tinha mais o ímpeto de antes.

E naquele dia, tudo de pior que poderia acontecer ao bondoso cãozinho, aconteceu.
O animal já sabia que aquele seria o último em sua vida, seria a última vez que veria seus donos, que olharia profundamente nos olhos do menino que tanto o amava, do filho da família que o escolhera, que o tirara da rua. 
Ele sabia que seria seu último olhar...

O veterinário chegou. O desespero tomou conta do coração de todos os membros da casa. Mãe e os três filhos ficaram apreensivos; temiam o mal. 

"Leishmaniose, seu cão está com Leishmaniose. Uma doença que não tem cura e que, nós, precisamos levá-lo, para poupá-los de adquirirem a mesma, pois ela é perigosa e pode matar o ser humano. A família autoriza a ida do animal?" - informou o médico. "A eutanásia será feita com injeção." - Concluiu o profissional.

O filho mais novo já chorava; seu cenho era de desespero, refletia a dor de imaginar seu amigo morrendo por algo que nem tinha culpa.
A filha também tinha um semblante de tristeza, as lágrimas já corriam seu rosto esguio.
O filho mais velho preferiu não presenciar, mas seu coração estava dolorido, triste, com o que viria a acontecer.
A mãe com o nó na garganta, olhou os filhos, notou a tristeza que perpetuava entre eles; olhou para os olhos do animalzinho fraco deitado no chão da varanda da casa, que pareciam dizer "Socorro, não estou bem". Era de cortar o coração.
E depois voltou seu olhar para o médico veterinário.
Respondeu:
- Pode levar.

As lágrimas foram inevitáveis.
O profissional passou entre todos e seguiu diretamente até o animal que, deitado, tinha um olhar triste e imóvel. Não foi difícil coletá-lo, estava fraco, mal podia contrapor aquela atitude.
Colocou-o na carrocinha.

Das grades, o cãozinho olhou para os donos, estes lhe retribuiu um olhar de piedade e misericórdia, embebido em lágrimas que saltavam involuntariamente. 
[A melancolia embargava o momento]

Depois do olhar marcado pela dor da despedida... foi levado... deixando para trás as lembranças das brincadeiras e dos latidos estridentes, que ficariam gravados para sempre na memória.



Photo by: Bruno Silva


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